Brasil, patriazinha

Ainda é possível criarmos uma pátria educadora

Tião Rocha, Antropólogo, educador e presidente do CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento).

Eu me senti muito bem representado pelas pessoas que subiram a rampa do Planalto e colocaram a faixa no presidente Lula. E, como parte delas, escrevo ao novo governo.

Após o pandemônio político e a nuvem sombria que nos afligiu por quatro longos anos, é hora de ressurgirmos das cinzas, como a fênix grega. E retomar o caminhar em direção ao urgente, necessário e oportuno futuro que necessitamos para chegar ao século 21.

Nesse sentindo, temos que recuperar algumas pérolas que foram jogadas aos porcos, mas que permanecem pérolas; joias raras e fundamentais para criar um país que se quer digno e ético, generoso e acolhedor, diverso e complexo, livre e solidário. E para todos, todas e “todes”, sem exceção e exclusão.

Alunos em escola estadual na zona leste de São Paulo – Zanone Fraissat.

A primeira pérola surgiu no governo Dilma Rousseff (PT), mas que, infelizmente golpeado, não se realizou: tornar o Brasil uma “pátria educadora”. Ao assistir aos esforços do papa Francisco para mobilizar o mundo em prol de um Pacto Educativo Global, a ideia de uma “pátria educadora” torna-se mais que necessária e pode vir a ser um exemplo para o mundo. A oportunidade é agora, quando, pela vontade da maioria do povo brasileiro, a esperança voltou a nascer e a democracia reanimou nossa existência. Tomara que para sempre!

Uma “pátria educadora” tem que se sustentar sobre princípios éticos, perenes e vigorosos para que se consolide para sempre. Quais são eles:

  1. As escolas públicas brasileiras, em todos os níveis, deverão existir em função das suas crianças e jovens estudantes, não o contrário! Os alunos e alunas nunca mais deverão estar à mercê de um sistema formal, discriminatório, anacrônico e falido de ensino;
  2. O sistema de ensino brasileiro, a partir de agora, não poderá perder nenhuma criança e jovem. Nenhuma e nenhum a menos; ninguém deixado para trás!;
  3. A ciência já comprovou que todas as pessoas aprendem tudo o que precisam, necessitam e querem saber, mas cada uma só aprende no seu próprio tempo e ritmo. As crianças adoram aprender. O que elas não gostam é de estudar, porque o sistema de ensino fez da aprendizagem não um prazer, mas uma chatice, num processo defasado, seletivo e excludente. Garantir esse tempo e ritmo de aprendizagem para cada criança e jovem será condição “sine qua non” para que ninguém fique para trás ou seja excluído prematuramente;
  4. Todas as cidades brasileiras deverão se tornar “cidades de aprendizagens”. Isso mesmo, ecossistemas de aprendizagens permanentes porque devem abrigar, democraticamente, toda a diversidade de conhecimentos e aprendizagens em seus territórios, sem discriminação ou exclusão;
  5. E que a lição de nossos ancestrais africanos, ainda hoje presente entre os povos macuas, se torne um lema sempre atual para a construção dessa “pátria educadora” que precisamos ser: “Para educar uma criança, é preciso uma aldeia inteira”.

A nossa aldeia chama-se “pátria, Brasil!”. Meu conterrâneo Guimarães Rosa, se estivesse vivo, diria, mineiramente: “Patriazinha”!

Fonte: Folha de São Paulo

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